quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Pergunta-se

Inspirado em Pablo Neruda e à quatro mãos com Luis.

Por que minha vida tomou esse rumo,
Se eu mesmo não sabia aonde levá-la?

Por que escolher esse caminho
Quando tantos outros me parecem mais curtos e retos?

O mundo realmente dá voltas,
Ou eu que fiquei tonto com as mudanças do mundo?

O som que eu ouço quando calo
É o sutil assobio da natureza?

Ou são os pássaros tocando bandolim,
E a natureza sopra nada mais que ventos?

Tudo mudou?
Ou eu que não percebi que nada era do jeito que eu pensava ser?

Verdadeiras são as palavras de um sábio?
Ou são mais sábias as palavras de um coração verdadeiro?

Quando um sábio fala,
Fala com o coração ou com a experiência?

Quando se descobre que o amor não é tão simples quanto nos livros,
Desiste-se da literatura ou do amor?

Quantos beijos no ouvido valem um segredo não contado?

Quantas caminhadas ao entardecer, de mãos dadas,
Fazem a distância de ida e volta ao infinito?

Os violinos têm o poder de voar,
Ou só nos dão essa vontade quando tocam?

Quando o sol dá luz ao dia,
Inicia-o com a mesma preguiça que eu?

O sol está em seu ápice ao meio-dia,
Ou minha cabeça se esquenta com os problemas da manhã?

sábado, 12 de junho de 2010

Carinhoso

Do beijo desabrochou o pranto
E do arranjo fez-se o estrago
Que num pobrezinho afago
Deu bola para o nascer de um novo canto...

Da namorada fez-se, então, a amante,
Que beijava tão mais apaixonada
E abraçava tão mais apertada
Que tornou-se amor constate.

O carinho, quando você não cuida,
Vai cambaleando...
De perna manca, coxa bamba,

Até ficar completamente alheio
Nos braços de outra
Que a gente nem sabe se ama...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vacilos à parte...

Vacilos à parte, eu juro:
Juro por tudo mais sagrado,
De corpo e alma arrebentados
Pelo sentimento mais puro.

Deslizes que cometi, inseguro,
Foram causados por medo
De te perder tão cedo
Para as incertezas do futuro.

Se cá estou e em ti meu coração finco
É porque, ainda que vacile cruelmente,
Que deslize... É com afinco

Que tento, juro por Deus, eu tento
Ser para ti único sobrevivente
Dos naufrágios de teu contento.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Teu umbigo é um enclave

Teu umbigo é um enclave...
É território meu, somente meu,
Perdido em tanta abundância
Que são as terras tuas:
Fartas de beleza, forma e inteligência.

Teu umbigo é um enclave!
É território meu, somente meu;
É seara das mais belas flores,
Jardim dos mais lindos amores,
Cujo possuidor sou eu,
Somente eu,
apenas eu.

Teu umbigo é um enclave:
Ainda que seja somente,
Puramente,
Inexoravelmente meu,
Sabes também que eu sou todo teu
E que, por conseguinte,
Meu enclave torna-se teu.

Teu umbigo é enclave meu,
E, não sei se sabes,
Mas meu coração é enclave teu!
É um enclave que tu adquiriste
Como o meu eu adquiri.

Deves saber, contudo,
Que a todo tempo,
O tempo todo,
Eu penso em romper barreiras,
Ultrapassar fronteiras
E transgredir leis:
Com o único propósito
De expandir o teu território que é meu.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tempo tempo tempo tempo...

O tempo não é só o tic-tac de um velho relógio de parede: ele é combustível, hélice, motor; ele é ancião, criança e adulto.
O tempo é a voz consciente que nos diz no ouvido as respostas maduras para as perguntas feitas pela vida.

Portanto, o hesitar e o titubear nada mais são que os artifícios temporais que o sábio dentro de nós pede... Visto que a essência do amor não se mostra - usualmente - em poucos segundos.

Como qualquer combustão, é necessário tempo.
É necessário combustível, hélice, motor.
E nem sempre o resultado é exato...

terça-feira, 13 de abril de 2010

Soneto da decepção justificada

Se eu te decepciono agora, querida,
É para mais tarde não sofreres ainda mais,
É decepção como mensagem de paz:
Se o faço, é para amenizar a dor da partida.

Quando achas que menti, engana-te!
Por mais falso que soe o discurso que disse,
Por maior que seja o grau de minha canalhice,
De uma sina bem pior eu te protegi.

É que não posso encarar pior mentira...
Não é do meu feitio viver
Sob o jugo do amor hipócrita.

Merecemos o que o acaso nos atira!
Não o nosso caso de querer-ser,
Não a nossa pobre e cruel anetoda.

sábado, 27 de março de 2010

Eu te escrevi um poema...

E nele havia um endereço...
Por que moras tão longe?,
Eu perguntei naquela carta...
Ai ai
Distância
Coisa chata.

Soneto de Lucia

Paris levou embora minha mais linda cantora!
Causou em mim a mais profunda das ausências:
E com saudade deste coração-querência,
Tentei, em vão, ignorar que ela se fora.

Perdi-me então num imenso abismo social
Político, geográfico, semântico, burguês...
O amor na minha língua é diferente do francês.
Ficou o espasmo da proximidade musical.

Ficou o verso, a bossa, a imaginação fluente
- que dizia "a minha tez, a tua, a nossa" -
E os agrados tão distantes, gigânticos,

Separados por um Oceano Atlântico
E apertados por acordes diferentes,
Quentes, dissonantes, quentes...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Metamorfose

No momento em que o amor vira ódio,
Não preciso de jazz ou de poesia
Preciso de grito, rock'n'roll e heresia.
Hei-de subir campeão neste pódio.

Preciso do grito no ouvido dela,
Com a única intenção de causar dor,
Por para fora todo o extinto ardor
Destilado com as mentiras mais belas.

Preciso do rock'n'roll para abafar os murros
Que todas as paredes receberão,
Dos quais minhas mãos não se arrependerão,
Ainda que delas escorra um sangue surdo e mudo.

Preciso desesperadamente de heresia,
Pois nada que é sacro e são
Se há de se comparar com isso tudo.

Piada sombria

Eu me esquivo de balas,
Agulhas, facas e navalhas:
Mas, ainda que seja furtivo,
Caio sob o jugo de meu humor
Auto-destrutivo.

Ou seria meu amor?

domingo, 7 de março de 2010