As intimidantes labaredas de fogo cuspiam toda a sua ira pelos ares daquela vizinhança onde havia, há poucas horas, uma bela residência. A estrutura de madeira gritava por socorro em um irritante farfalhar que parecia ser um réquiem para o homem que ali morava. Homem não mais; apenas a desesperada carne consumida por calor... Algo que virá a se tornar um frio vaso de cinzas.
O espetáculo das ardentes chamas reluzia em fascinados olhos à espera de qualquer ato final que envolvesse a aflição do homem e a fúria do ardor que tudo suprimia; a fumaça cinzenta dali proveniente pincelava o negro céu com estúpidos tons de agonia e soprava uma baforada que desencadeava sinfonias de tosse regadas à lagrima.
Não havia lágrima suficiente para apagar brasa, angústia ou raiva.
Não havia ombro o bastante para enxugar tanto choro.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Mudanças
Por que mudaste, querida?
Eras tão complexa, tão temida.
Não chegava ao teu pé o requinte francês,
Nem tanto a simplicidade do inglês.
Agora, na rubrica de um analfabeto,
Perdeste teu soneto predileto.
(Seja lá qual for)
Eras tão complexa, tão temida.
Não chegava ao teu pé o requinte francês,
Nem tanto a simplicidade do inglês.
Agora, na rubrica de um analfabeto,
Perdeste teu soneto predileto.
(Seja lá qual for)
Das Conversas que Não Terminam
Os amigos beberão até que não mais possam
Defender suas incríveis ideias;
Os políticos inutilmente gritarão.
Aqui ou lá do outro lado do mundo,
A conversa para:
Ao som de bomba ou ao som de bala;
Para sem ponto final toda a oratória.
Conseguirá alguém terminar a fala?
Haverá, então, uma solução?
Defender suas incríveis ideias;
Os políticos inutilmente gritarão.
Aqui ou lá do outro lado do mundo,
A conversa para:
Ao som de bomba ou ao som de bala;
Para sem ponto final toda a oratória.
Conseguirá alguém terminar a fala?
Haverá, então, uma solução?
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Da Água que Cai
Sempre que chove
A alma chora.
Late como cão sem dono;
Dói... e ela adora.
Na incansável busca por qualquer
- quem sabe? -
inexistente tristeza,
Ela acha num poeminha falido
Um fiapo de beleza!
A alma chora.
Late como cão sem dono;
Dói... e ela adora.
Na incansável busca por qualquer
- quem sabe? -
inexistente tristeza,
Ela acha num poeminha falido
Um fiapo de beleza!
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Nova Ordem
Se ideia não tem mais acento
Como formulo eu o pensamento?
Calma, meu bem, não tema;
Ainda estamos aqui, o que caiu foi o trema.
Agora que tudo é menos complicadinho
É só tirar o hífen
- e ficamos maisjuntinhos.
Como formulo eu o pensamento?
Calma, meu bem, não tema;
Ainda estamos aqui, o que caiu foi o trema.
Agora que tudo é menos complicadinho
É só tirar o hífen
- e ficamos maisjuntinhos.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Caderno
Meu caderno de rascunhos é um oceano,
Um infinito de amores imperfeitos:
Amores de um só
E cupidos com defeito.
Minha pasta de músicas está cheia:
Cheia de bossas incompletas;
Baladas inacabadas;
Sonetos de mil estrofes.
Minha virgem dos olhos de menta tarda a chegar
E a me dar um beijo com gostinho de cânfora
Que eu nunca sentirei.
... E a me puxar para o seu abraçar:
Abraço com aroma de sândalo
Que eu nunca abraçarei.
Um infinito de amores imperfeitos:
Amores de um só
E cupidos com defeito.
Minha pasta de músicas está cheia:
Cheia de bossas incompletas;
Baladas inacabadas;
Sonetos de mil estrofes.
Minha virgem dos olhos de menta tarda a chegar
E a me dar um beijo com gostinho de cânfora
Que eu nunca sentirei.
... E a me puxar para o seu abraçar:
Abraço com aroma de sândalo
Que eu nunca abraçarei.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Homem ao Mar
Em cada porto em que paro
Disparo tiros de felicidade e tristeza.
E assim o meu navio parte:
De lua em lua;
De marte em marte.
As minhas certezas e incertezas
Se dissolvem em um mar de desilusão,
E aos poucos descubro em quais capitães posso confiar;
Em que praias posso aportar;
Com que belezas posso me entreter.
Vou então me conhecendo nesse fascinante oceano...
Isso que chamamos de "vida".
Disparo tiros de felicidade e tristeza.
E assim o meu navio parte:
De lua em lua;
De marte em marte.
As minhas certezas e incertezas
Se dissolvem em um mar de desilusão,
E aos poucos descubro em quais capitães posso confiar;
Em que praias posso aportar;
Com que belezas posso me entreter.
Vou então me conhecendo nesse fascinante oceano...
Isso que chamamos de "vida".
@ Alto Mar
Porto
De cada lugar que deixo para trás
Levo um sentimento cada vez mais distante e remoto
Das lembrancas que vivi.
Uma briga, um carinho;
Uma foto ou o souvenir mais pobrezinho...
Qualquer coisa que me traga de volta as tão negras,
brancas e pardas peles que conheci.
E do porto se parte
Num gesto, numa arte
Que só vendo para saber.
@ Jamaica
Levo um sentimento cada vez mais distante e remoto
Das lembrancas que vivi.
Uma briga, um carinho;
Uma foto ou o souvenir mais pobrezinho...
Qualquer coisa que me traga de volta as tão negras,
brancas e pardas peles que conheci.
E do porto se parte
Num gesto, numa arte
Que só vendo para saber.
@ Jamaica
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Distração
Nós não precisamos de algo para nos distrair: a distração sozinha se faz na ausência do fazer.
É por isso que quando nos isolamos de tudo que nos distrai, a fim de que possamos nos concentrar, nós nos distraímos do mesmo jeito, com o nada.
Hoje cheguei uma e vinte minutos mais cedo do que deveria ter chegado onde estou, e a distração se fez.
Se fez no papel e na caneta; na chuva que vinha chegando; nos minutos que passaram até agora; nas pessoas que falam ao redor e no futuro arranha-céu que estão construindo bem ali no horizonte.
A distração sozinha se fez.
É por isso que quando nos isolamos de tudo que nos distrai, a fim de que possamos nos concentrar, nós nos distraímos do mesmo jeito, com o nada.
Hoje cheguei uma e vinte minutos mais cedo do que deveria ter chegado onde estou, e a distração se fez.
Se fez no papel e na caneta; na chuva que vinha chegando; nos minutos que passaram até agora; nas pessoas que falam ao redor e no futuro arranha-céu que estão construindo bem ali no horizonte.
A distração sozinha se fez.
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