sábado, 30 de outubro de 2010
Sobre solidão
O problema de estar feliz na presença dos amigos é que o menor vestígio de sua ausência já é uma infelicidade imensa.
Sobre filosofar
Filósofos são, por definição, tristes: a reflexão sempre traz à tona verdades desagradáveis.
Sobre arte e vida
Não existe isso de "a arte imita a vida" ou "a vida imita a arte". Arte e vida coexistem em mutualismo obrigatório.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Quem sou eu?
Sou o que os bêbados costumam chamar de poesia:
Sou aquilo do que os loucos sofrem,
Loucura, insanidade, desvaria!
Os boêmios me chamam de tontura
E, de goles em goles,
Eu vou desaparecendo em sono.
Mas também sou o amor que brota e invade a pele
Sou a sensação de flor que nasce e cresce em ti
Sou o afago, o carinho, o aperto no fundo do peito
Aquele abraço diferente, bom, sem jeito
O sorriso das piadas sem graça? Também o sou.
E o barco navegando no rio Negro?
Sou a ida e sou a volta!
Quando fico e quando vou,
Independente das margens em que me encontro,
Quem eu sou?
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Saudade da poesia
Quanta saudade da poesia!
Do trôpego e bêbado andar do amor
Dos sorrisos das mulheres sem valor,
Do verso que de minha boca partia.
Haja saudade dos silêncios discursivos,
Dos discursos inócuos, da alegria
Que invade a alma triste e fria
Dos desejos brutos, permissivos.
Quanta falta que aqui há!
Das doces sugestões libidinosas,
Fruto da deselegância dos drinques;
E das atitudes tão impetuosas
Que apenas num poema há:
Amar, cantar, sorrir, chorar...
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Cálice
Afasta de mim esses teus olhos azuis
Tão assombrosos de cruel tentação
Que fazem temerosa sensação
De boate, bar, bebida e blues
Afasta de mim teu hipócrita pudor
Tua vermelhidão de tantos rubis,
Tira de mim tuas mãos tão sutis,
Leva embora do teu corpo o calor
Afasta de mim tua mácula hedonista
Essa tua busca incessante por gozar
Afasta de uma vez, não insiste.
Afasta de mim esse cálice!
Para de torpores mil falar,
Para, por favor, cala-te!
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Pergunta-se
Inspirado em Pablo Neruda e à quatro mãos com Luis.
Por que minha vida tomou esse rumo,
Se eu mesmo não sabia aonde levá-la?
Por que escolher esse caminho
Quando tantos outros me parecem mais curtos e retos?
O mundo realmente dá voltas,
Ou eu que fiquei tonto com as mudanças do mundo?
O som que eu ouço quando calo
É o sutil assobio da natureza?
Ou são os pássaros tocando bandolim,
E a natureza sopra nada mais que ventos?
Tudo mudou?
Ou eu que não percebi que nada era do jeito que eu pensava ser?
Verdadeiras são as palavras de um sábio?
Ou são mais sábias as palavras de um coração verdadeiro?
Quando um sábio fala,
Fala com o coração ou com a experiência?
Quando se descobre que o amor não é tão simples quanto nos livros,
Desiste-se da literatura ou do amor?
Quantos beijos no ouvido valem um segredo não contado?
Quantas caminhadas ao entardecer, de mãos dadas,
Fazem a distância de ida e volta ao infinito?
Os violinos têm o poder de voar,
Ou só nos dão essa vontade quando tocam?
Quando o sol dá luz ao dia,
Inicia-o com a mesma preguiça que eu?
O sol está em seu ápice ao meio-dia,
Ou minha cabeça se esquenta com os problemas da manhã?
sábado, 12 de junho de 2010
Carinhoso
Do beijo desabrochou o pranto
E do arranjo fez-se o estrago
Que num pobrezinho afago
Deu bola para o nascer de um novo canto...
Da namorada fez-se, então, a amante,
Que beijava tão mais apaixonada
E abraçava tão mais apertada
Que tornou-se amor constate.
O carinho, quando você não cuida,
Vai cambaleando...
De perna manca, coxa bamba,
Até ficar completamente alheio
Nos braços de outra
Que a gente nem sabe se ama...
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Vacilos à parte...
Vacilos à parte, eu juro:
Juro por tudo mais sagrado,
De corpo e alma arrebentados
Pelo sentimento mais puro.
Deslizes que cometi, inseguro,
Foram causados por medo
De te perder tão cedo
Para as incertezas do futuro.
Se cá estou e em ti meu coração finco
É porque, ainda que vacile cruelmente,
Que deslize... É com afinco
Que tento, juro por Deus, eu tento
Ser para ti único sobrevivente
Dos naufrágios de teu contento.
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