segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Aftertaste

Tem coisa que trava na língua, tem coisa que trava no coração.
Vinho trava na língua; a gente come um queijo, joga conversa fora, e o amargor permanece.
Amor trava no coração; a gente dança outros tangos, assiste a outros filmes, namora em praças diferentes...
É um aftertaste adstringente não só pelo travor que abrange o corpo todo, mas pelo jugo ante o qual ficamos submetidos inconscientemente;
É um sabor cáustico, não só cáustico por ficar - às vezes, durante anos - se arrastando pelas papilas gustativas do coração, mas cáustico por ser mordaz e queimar lentamente, ironicamente;
É, acima de tudo, de lixívia, pois cai-se na barrela e se fica com a reputação repleta de nódoas e máculas, resultantes de atritos passados.
Cáustico, adstringente ou de lixívia, não é à toa que os nomes do travoso sabor de amar são tão coerentes em seus outros significados.
Ah, e no final... O amargor permanece.

domingo, 4 de outubro de 2009

Caixa de fósforos

Numa caixinha de fósforos
- tão pequena -
Há tantas oportunidades
de se fazer tanta luz.
Oportunidadezinhas
imensamente efêmeras.
Numa caixinha de oportunidade-
zinhas azuis.

sábado, 3 de outubro de 2009

A Pureza de um Homem

A pureza de um homem não deve ser medida
Pelo número de cigarros que ele não fumou,
Pelas vezes em que ele não pensou em sexo
Ou por todas as cervejas que ele deixou de beber.
A pureza do homem jamais será medida
Por critérios tão mundanos.

A pureza de um homem será sempre avaliada
Pela desesperada solicitude com a qual
ele ajuda seus amigos;
Ela deverá ser medida de acordo com sua sinceridade:
A honestidade - não apenas quanto ao dinheiro
[que caiu na calçada -
Mas a honestidade em relação aos sentimentos
e à postura diante da vida.
A simplicidade com que ele apoia quem precisa
e com que ouve quem quer falar.
A pureza de um homem há de ser sempre correlacionada
à sua indignação diante dos crimes mais hediondos
e dos pecados mais crueis.

Há poucos homens puros,
Mas estes valem por muitos de nós.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Amazonas rosa

Ali! Onde o céu do Amazonas fica rosa!
É um lugar que faz com que
Os campos de grama fiquem lisos lisos...
As árvores são voluptuosamente virgens,
E o vento é acolhedoramente frio.
Ali, no único lugar do mundo
Onde o céu do Amazonas fica rosa.

sábado, 26 de setembro de 2009

Que nem música

Julga as opções sem dó,
Ao contrário, andarás de ré.
Tem cuidado com vos amis,
Estes causam o maior bafafá...
Se queres morrer onde nasce o sol,
Trabalha sempre virado para lá
E pensa sempre apenas em si.

Seria tão chato o som da vida
se ela fosse tocada nessa ordem
tão (mono)cromática!
Ainda bem que somos feitos de
acordes dissonantes,
melodias pra lá de errantes,
erros gramaticais
e atitudes irracionais!
Que nem música,
igualzinho música...

Se render

Vive, mas não te rendas à vida
[surrender]
Ama, e te rendas sem pensar duas vezes
[surrender]
Acaba sendo tudo como um crime:
a gente nunca sabe,
[to surrender or not to]

Os Pássaros

Olha lá,
os pássaros no meu quintal
me chamando pra voar.

Vê aqui,
eu querendo ir lá voar
enquanto ainda crescem minhas asas
ao gosto amargo do caqui.

Bem-te-vi, bem que eu te avisei
o quanto seria difícil
voar
voar
voar

domingo, 20 de setembro de 2009

Quem nunca...

Quem nunca olhou sem realmente ver o que olhava?
Quem nunca deitou em colo de mãe
e percebeu que é a melhor coisa que existe?
Quem, pelo amor de Deus,
nunca deitou numa rede,
fitou o céu azul atrás das verdes palmeiras
e fechou os olhos à paz?
Quem nunca disse 'nunca mais'?
Sabe-se lá...

Quem se atreve a dizer?
Que jamais admirou o cair triste triste
da chuva;
Que se recusou a sorrir junto
ao receber um belo sorriso;
Que não sentiu o doce acolhimento
do abraço.
Alguém se atreve a dizer?

Se nunca fizeste o supracitado,
se te atreves a dizer que nunca o fizeste,
se teus olhos ainda não sentiram os olhos da vida...
Eu te imploro:
Vai lá, amigo,
vive.

domingo, 6 de setembro de 2009

Reino dos Céus

Mostra, lua, tua leitosa opulência!
Deita-te neste véu azul-marinho,
E, numa noite de domingo,
Reflete teu brilho num rio qualquer

Honrai, estrelas, a presença desta lua
Irradiai vossa luz mais que nunca
Espalhando fulgor em cada vão desejo
Iluminando a tez de cada então mulher

Homens, fazei nada além de admirar.
Calai: tornou-se o fúnebre silêncio
A melodia mais-que-perfeita.

Não é sempre que Deus nos orquestra
tal sinfonia... À manhã, tirará
do firmamento este véu,

Devolvendo o azul-claro e simplório
Ao fascinante Reino dos Céus.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Dança dos Braços

Primeiro foram os braços:
Que iam se enlaçando aos poucos
E, ao som de dizeres roucos,
Tornaram-se abraços.

Depois vieram as lentas mãos,
Desbravando cada centímetro da tez,
Desafiando a própria lucidez,
Se atrevendo contra todo o coração.

Na ignorância dos mais sábios,
Fez-se o espanto inesperado
No encostar de certos lábios;

E na incoerência dos sãos,
Fez-se a frase sem sentido
No separar de duas mãos.

domingo, 5 de julho de 2009

Despedidas

Abraço. Olhos nos olhos, cintilantes olhos, e mais um abraço.
A bagagem vai, ébria de tanto peso, até a mala do carro e, num aperta daqui e afrouxa dali, entra finalmente, não obstante desajeitada.
São uns chamegos tão doces, uns sorrisos tão curiosos, uma avassaladora enxurrada de palavras que não consegue passar da garganta; são apelidinhos carinhosos, promessas para o ano que vem, brindes do próximo ano novo.
Manda um beijo pra Fulana, dá notícias pra Sicrano e não esquece de entregar o presente de aniversário de Beltrano! E mais recados. Mais notícias, mais presentes. Mais, mais, mais... Em cada vez menos tempo - pois vai chegando a hora do voo.
Abraço. Olhos nos olhos, lacrimosos olhos, e mais um abraço.
Alguém entra no carro, um outro alguém liga o carro, aciona o taxímetro e dois corações se distanciam. Outrém chora, lembra, sente saudade e olha, até o sumir no horizonte, o partir de um carro qualquer com a placa vermelha.
Assim se despedem os pais e filhos, namorados e namoradas, amigos, parentes, colegas... Assim despedem-se os que se gostam.